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elementar - conjugação de terra, água, fogo e ar

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Vale da Utopia

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Tu e Eu


Eu alento
Tu melancolia
Eu saltar ao vento
Tu cair na via
Tu não sabe
Eu sei bem
Eu insisto
E tu vem?

Ps.Eu matéria de poesia
Tu cobaia de palavras
A maravilhosa voltou.
Ela precisou voltar.
A demanda anda larga, grande, gigante, se impondo.
E há que se dar conta de tanto!
Tenta-se muito, arrisca-se mais.
E de salto em salto brincam os saltimbancos do cotidiano para fugir dos salteadores da paz de espírito.
As oportunidades se agarram pelos cabelos (por isso ela é uma mulher careca, disse-me uma aluna outro dia).
O maior dos erros consiste em ter pressa ou lentidão frente a oportunidade anunciada, disse-me uma frase perdida, dessas que ficam como um out-door nas vias de mão única da memória.
Como saber o momento certo de saltear uma oportunidade?
É questão de esperteza ou de sorte?
Quem souber a resposta, avise-me, por favor.

terça-feira, 16 de setembro de 2008

na estante


Olha
quem
veio
visitar
o Manuel
de Barros
dois pontos
traço
as traças!

Hoje


Hoje, por aqui, tudo nublado.
Mas mesmo as manhãs nubladas ficam mais bonitas na primavera.
É, "a gente é tão pequeno, gigante no coração"...

sábado, 13 de setembro de 2008

http://figura-fundo.blogspot.com/

Não é que é bom: é muito bom!
Out sider auto declarado, inimigo das burocracias estatais e privadas, artista multimídia.
Feminino com arte!!!
Alegro-me porque existes em minha vida: simplesmente Cris!

Sobre borboletas e metamorfoses


Mirem-se no exemplo das borboletas

http://br.geocities.com/bdsm_serpentes_vagalumes_fadas/borboleta.htm

"A borboleta, invertebrado da classe dos lepidópteros, deve ter surgido a cerca de 70 milhões de anos atrás. É um bichinho que causa grande fascínio por sua
capacidade de transformação. Depois de se reconhecerem pelas cores e formatos
das asas, machos e fêmeas flertam, cruzam, e a fêmea deposita seus ovos em uma
folha, deixando-os lá e indo borboletear em outros cantos por aí. Se as condições
climáticas estiverem favoráveis, a larva ( lagarta ) vai sair do ovo. Senão, ela espera.
E espera, espera, espera... Até conseguir nascer. Isso é uma coisa
interessante para se aprender com os embriões de
borboletas - a espera e a sensibilidade às condições
do ambiente. Embrião apressado é lagarta morta.E quando nasce, a lagarta nasce voraz. Devora a própria casca do ovo, e é capaz
de comer uma planta com o triplo de seu tamanho em poucos minutos. Talvez porque
a lagartinha, em sua sábia programação biológica, sabe que a maior responsabilidade
de ser lagarta é a de extrair do ambiente o máximo que conseguir guardar em si
mesma, para que consiga ficar forte depois. A vida da lagarta, que pode durar de
meses até um ano, é andar por aí e se alimentar. Como acontece com todos os
animais, ela está sujeita ao ataque de predadores. Por isso, ela guarda em si uma
substância ácida e fedida que pode queimar, desagradar e afugentar os bichos que
tentarem devorá-la. E não hesita em usá-la quando necessário. Espertinha,
essa menina. Durante essa fase, a lagarta troca de pele várias vezes. Imagina o que
aconteceria se ela resistisse em abandonar a velha pele...
Iria explodir apertada dentro de uma casca que já não lhe
serve mais. É que as lagartas, como a gente, crescem muito.
E quando a gente cresce, deixa pra trás um pedaço de si
mesma, para poder ganhar novas formas e cumprir o
ciclo da vida. A lagarta, mais uma vez espertinha, não perde tempo
quando está de casca nova. Começa a comer mais e mais, até crescer e
ficar enorme, forte, gordinha e pronta pra virar borboleta. Fiquei pensando,
como a lagarta sabe que é hora de se pendurar, tecer alguns fios de seda e
começar a montar um casulo? Será que ela escuta um sinal, sente alguma
dor, tem alguma alucinação? O fato é que, na hora certa, nem antes nem depois, ela procura um lugar
seguro, muito seguro para iniciar seu processo de reclusão. Nesse momento,
ela perde todas as pernas, e fica incapacitada de andar. Troca de pele uma última
vez, enquanto vai tecendo seus fios. Alguns lepidópteros se enterram, ou constroem
uma espécie de casinha com gravetos e fios. E pronto: ela se fecha lá dentro,
e vira uma pupa ( ou crisálida, ou casulo ). Lá dentro, não conseguimos descobrir direito o que acontece. Talvez porque
não seja mesmo da nossa conta. Se a lagarta se fecha em pupa, é porque
quer ficar sozinha e isolada do mundo, em total repouso, trocando seus tecidos
e se preparado para virar uma outra coisa, totalmente diferente da lagarta. E é
uma coisa que ela só pode fazer sozinha, quieta e em segredo.Será que ela sente dor enquanto se transforma em borboleta?. Não achei a informação
correta, mas sei que: todo processo de transformação costuma ser
dolorido, e quanto maior a mudança, maior a dor e maior
o prazer depois de terminado. E olha que não existe
mudança maior do que, de uma lagarta, um bicho
rastejante, curioso, lento e pesado, virar uma borboleta,
tão leve, tão bonita, tão... Tão.O lugar onde fica o casulo é fundamental para a sobrevivência da borboleta.
Lá, a borboleta vai ficar reclusa de uma semana a um mês; portanto, ele
tem que estar bem protegido. Em minhas pesquisas vi um casulo ser atacado
por um bando de marimbondos. Fiquei apreensiva, mas, depois de investir
ferozmente contra o casulo, eles foram embora. Não conseguiram derrubá-lo
nem penetrá-lo. Aí que fui entender como realmente é
importante que a lagarta espere o tempo que for necessário
até poder se fechar em pupa. Tudo em sua hora...
Sem ansiedade nem pressa.Não tive oportunidade de observar um casulo abrindo, e nem os momentos
iniciais da borboleta adulta. Mas li e aprendi que, quando finalmente está pronta
para sair, ela vai abrindo o casulo devagar. Este esforço de abrir o casulo é
fundamental para que ela se fortaleça o suficiente para poder voar depois.
Ela sai com as asas molhadas e envoltas em um líquido gosmento. Por isso,
precisam ficar no sol secando, esticando as asas. Li que o esforço que elas
fazem para esticar as asas é enorme, mas necessário. É que nascer, ou renascer, é mesmo difícil. Depois... As borboletas começam a voar. São bichos bonitos, lindos,
uma pintura em forma de bicho. Causam encantamento imediato.
Dizem algumas crendices que onde a borboleta pousa, leva sorte e sorrisos.
Ao contrário de suas irmãs mariposas, elas têm hábitos diurnos e amam as cores
e sabores das flores. Por suas antenas, conseguem sentir cheiros e gostos. Ajudam
a levar material genético de uma flor para outra, e enfeitam qualquer jardim. A principal razão da vida da borboleta adulta é se reproduzir para reiniciar o
ciclo - coisa que a lagarta não pode fazer. E, olha só que interessante: a maioria
das borboletas, depois de passar cerca de um
ano ( em alguns casos, bem mais que isso ) se transformando, não vive muito
mais que duas semanas. Duas semaninhas só. Algumas duram apenas três dias.
Pouquíssimas espécies conseguem sobreviver por uns seis meses... Mas não muito
mais que isso.Essa última informação deixou-me desolada. É difícil para nós, seres
humanos perseguidores de ideais de beleza, leveza e
felicidade parecidos com as asas das borboletas adultas,
compreender porque temos que ficar tanto tempo
lutando com nosso crescimento para depois aproveitar
tão pouco a vida. Mas em seguida pensei - errados somos
nós, certa é a natureza. Aproveita-se a vida sempre,
inclusive nas fases de lagartas e isolamento. Tudo
é uma questão de ponto de vista.A verdade é que estudar as borboletas me fez ganhar uma simpatia tremenda
por esse bicho que antes era insignificante para mim - a lagarta. É que
na verdade, o grande barato da coisa não é o final,
mas o durante. O mais divertido, o que mais ensina,
o que é mais fascinante não é ver uma borboleta
voando, mas acompanhar todas as mudanças pela
qual ela passa para chegar até lá. Todo processo
de transformação envolve alimentar-se; envolve se
sensibilizar; envolve cautela e percepção do ambiente;
envolve lidar com pequenas mortes e mudanças;
envolve tomar a decisão de se proteger; envolve
silêncio, reclusão, paciência; envolve espera e envolve
esforço. Sem isso tudo, o prazer de ser borboleta
não se concretiza. Olhar um casulo aberto é triste e feliz ao mesmo tempo.
Sei lá, dá uma sensação de missão cumprida e sonho
acabado. Mas é só olhar do lado pra ver uma outra largartinha começando tudo de novo. E aí a gente se dá conta
da maior beleza de todas."

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Amor Maduro



Amor maduro
O amor maduro não é menor em intensidade. Ele é apenas silencioso. Não é menor em extensão. É mais definido, colorido e poetizado. Não carece de demonstrações: presenteia com a verdade do sentimento. Não precisa de presenças exigidas: amplia-se com as ausências significantes.
O amor maduro tem e quer problemas, sim, como tudo. Mas vive dos problemas da felicidade. Problemas da felicidade são formas trabalhosas de construir o bem e o prazer. Problemas da infelicidade não interessam ao amor maduro.
Na felicidade está o encontro de peles, o ficar com o gosto da boca e do cheiro, está a compreensão antecipada, a adivinhação, o presente de valor interior, a emoção vivida em conjunto, os discursos silenciosos da percepção, o prazer de conviver, o equilibrio de carne e de espírito.
O amor maduro é a valorização do melhor do outro e a relação com a parte salva de cada pessoa. Ele vive do que não morreu mesmo tendo ficado para depois. Vive do que fermentou criando dimensões novas para sentimentos antigos, jardins abandonados, cheios de sementes.
Ele não pede... tem. Não reivindica... consegue. Não percebe... recebe. Não exige... dá. Não pergunta... adivinha. Existe para fazer feliz.
O amor maduro cresce na verdade e se esconde a cada auto-ilusão. Basta-se com o todo do pouco. Não precisa e nem quer nada do muito. Está relacionado com a vida e sua incompletude, por isso é pleno em cada ninharia por ele transformada em paraíso.
É feito de compreensão, música e mistério. É a forma sublime de ser adulto e a forma adulta de ser sublime e criança. É o sol de outono: nítido mas doce..., luminoso, sem ofuscar..., suave mas definido..., discreto mas certo. Um Sol que aquece até queimar.
(Artur da Távola)

Pepetela


"Coragem é saber que se tem medo e fazer o que se tem que fazer mesmo assim". Pepetela, escritor e ex-guerrilheiro angolano

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Agora - Debaixo d'água

http://www.youtube.com/watch?v=n_GO8P90tCM

Dissert(atividade) acadêmica

Em tempos hipermodernos, a experiência autêntica padece e sucumbe.
Estamos repletos de vivências, de acontecimentos, de informação e de opiniões e , no entanto, estamos pobres de experiência, como constatou Walter Benjamin.
Reflito: seria preciso vivenciar uma quase morte para dar vazão a mais vida? Não seria isso um paradoxo: valorizar a vida a partir do contato com a morte?

poder das palavras

"Eu creio no poder das palavras, na força das palavras,
creio que fazemos coisas com as palavras e, também,
que as palavras fazem coisas conosco. As palavras
determinam nosso pensamento porque não pensamos
com pensamentos, mas com palavras, não pensamos a
partir de uma suposta genialidade ou inteligência, mas
a partir de nossas palavras. E pensar não é somente
“raciocinar” ou “calcular” ou “argumentar”, como nos
tem sido ensinado algumas vezes, mas é sobretudo dar
sentido ao que somos e ao que nos acontece. E isto, o
sentido ou o sem-sentido, é algo que tem a ver com as
palavras. E, portanto, também tem a ver com as palavras
o modo como nos colocamos diante de nós mesmos,
diante dos outros e diante do mundo em que vivemos.
E o modo como agimos em relação a tudo isso.
Todo mundo sabe que Aristóteles definiu o homem
como zôon lógon échon. A tradução desta expressão,
porém, é muito mais “vivente dotado de palavra” do
que “animal dotado de razão” ou “animal racional”.
Se há uma tradução que realmente trai, no pior sentido
da palavra, é justamente essa de traduzir logos por
ratio. E a transformação de zôon, vivente, em animal.
O homem é um vivente com palavra. E isto não significa
que o homem tenha a palavra ou a linguagem como
uma coisa, ou uma faculdade, ou uma ferramenta, mas
que o homem é palavra, que o homem é enquanto palavra,
que todo humano tem a ver com a palavra, se dá
em palavra, está tecido de palavras, que o modo de
viver próprio desse vivente, que é o homem, se dá na
palavra e como palavra. Por isso, atividades como considerar
as palavras, criticar as palavras, eleger as palavras,
cuidar das palavras, inventar palavras, jogar com
as palavras, impor palavras, proibir palavras, transformar
palavras etc. não são atividades ocas ou vazias,
não são mero palavrório. Quando fazemos coisas com
as palavras, do que se trata é de como damos sentido
ao que somos e ao que nos acontece, de como
correlacionamos as palavras e as coisas, de como nomeamos
o que vemos ou o que sentimos e de como
vemos ou sentimos o que nomeamos
."

Jorge Larrosa Bondía
Notas sobre a experiência e o saber de experiência

http://www.anped.org.br/rbe/rbedigital/RBDE19/RBDE19_04_JORGE_LARROSA_BONDIA.pdf

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

dEUs sou eu

Estou no centro de Deus: dEUs.

Tempo

Resposta ao Tempo

Composição: Aldir Blanc/Cristovão Bastos

Batidas na porta da frente
É o tempo
Eu bebo um pouquinho
Prá ter argumento
Mas fico sem jeitoCalado, ele ri
Ele zomba
Do quanto eu chorei
Porque sabe passar
E eu não sei
Num dia azul de verão
Sinto o vento
Há fôlhas no meu coração
É o tempo
Recordo um amor que perdi
Ele ri
Diz que somos iguais
Se eu notei
Pois não sabe ficar
E eu também não sei
E gira em volta de mim
Sussurra que apaga os caminhos
Que amores terminam no escuro
Sozinhos
Respondo que ele aprisiona
Eu liberto
Que ele adormece as paixões
Eu desperto
E o tempo se rói
Com inveja de mim
Me vigia querendo aprender
Como eu morro de amor
Prá tentar reviver
No fundo é uma eterna criança
Que não soube amadurecer
Eu posso, ele não vai poder
Me esquecer
Respondo que ele aprisiona
Eu liberto
Que ele adormece as paixões
Eu desperto
E o tempo se rói
Com inveja de mim
Me vigia querendo aprender
Como eu morro de amor
Prá tentar reviver
No fundo é uma eterna criança
Que não soube amadurecer
Eu posso, e ele não vai poder
Me esquecerNo fundo é uma eterna criança
Que não soube amadurecer
Eu posso, ele não vai poder
Me esquecer

terça-feira, 2 de setembro de 2008

sincronicidade


"Definida por Carl G. Jung como uma coincidência significativa para uma das partes envolvidas no evento, a sincronicidade deve ajudar o indivíduo a entender as histórias que ele vive cotidianamente."
Control V Control C (Cacá, lembrei de ti!!!)

Penso no amigo, ele liga.
Penso em uma pessoa, ela aparece.
Um livro, uma canção, uma situação, intuída, vislumbrada como um relâmpago.
Acasos, coicidências...

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Por acaso, alguém pode me explicar o que é o acaso?

Parece que há uma relação estreita entre acaso e distração, mas eu, distraída, fui a última a saber. Tempo atrás, cheguei a conclusão que coincidências podem ser intuição. Mas isso não se aplica ao caso do acaso.

Há dias que meu pensamento insiste em querer desvendar este mistério como quem tenta conjugar verbos irregulares em idiomas inexistentes.Leio livros, ouço canções, pergunto, pesco citações garimpando preciosidades. Numa dessas, na casa do amigo, deparo-me:

"O acaso é, talvez, o pseudônimo que Deus usa quando não quer assinar suas obras."

Pronto! Achei!Certo!!! Mas antes que desfiasse todo o meu rosário de exclamações, o amigo, atento, chama a atenção para a palavra "talvez". E volta toda minha dúvida. Ò Céus!!!

Volto para casa ávida por Nei Lisboa, Cena Beatnik, ali encontraria pistas:

" E o acaso me deixou na porta da tua casa/
Faz silencio e faz de conta que já me esperava/
Que eu tava pra chegar/
Pra ficar e pra sumir sem dar explicação/
Pra me livrar da prisão
Ou só pra te ouvir dizer que não
Só pra torcer o pé
Descendo a escada
De quem não te quer"

(HAHAHA - Torcer o pé descendo a escada de quem não te quer? Baita acaso!!!! Nem precisa Freud para explicar isso.)

Também não solucionou o meu particular enigma. Continuo curiosa e insatisfeita. Proponho a uma turma uma rápida reflexão sobre o assunto. Sim, confesso sem culpa, eu uso a sala de aula como uma oficina de conceitos, um laboratório de idéias, cujos resultados geralmente me surpreendem, mas nem sempre. E, infelizmente, neste caso, nada de muito especial.

Mas, eis que hoje a tarde, saindo de casa, apressada, como sempre, escuto Distração*, de Zélia Duncan. Fez sentido. Mudo meu ritmo e rumo: por outra rua, percebi outras flores e aromas. Na volta, deparo-me com pequenas dádivas que valeram meu dia e os próximos. Um vento sopra do meu inconsciente e me arrasta suave até a biblioteca. Deparo-me com o belíssimo livro que a amiga Lu me indicou com entusiasmo: "Fadas no Divã"** Ali fiquei, mergulhada na leitura (lembrando do papo da colega: a mulher precisa superar a "síndrome da fábula" - a espera de um principe encantado, ser feliz para sempre, bla, bla), enquanto a pequena divertia-se com livros infantis, até nos expulsarem dali. Tão distraídas estávamos que nao percebemos a noite que chegava. A lua, entrando em fase crescente, bem na metade do circulo, já meia garbosa, andou brincando de se esconder com as nuvens nos últimos dias. Tudo por acaso. Quem percebeu?

Notas (para quem quiser se distrair um pouquinho):

*Se você não se distrai, o amor não chegaA sua música não tocaO acaso vira espera e sufocaA alegria vira ansiedadeE quebra o encanto doceDe te surpreender de verdade Se você não se distrai, a estrela não cai O elevador não chegaE as horas não passamO dia não nasce, a lua não cresceA paixão vira pesteO abraço, armadilhaHoje eu vou brincar de ser criança E nessa dança, quero encontrar vocêDistraído, querido Perdido em muitos sorrisosSem nenhuma razão de serSe você não se distrai,Não descobre uma nova trilhaNão dá um passeioNão rí de você mesmo A vida fica mais duraO tempo passa doendoE qualquer trovão mete medo Se você está sempre temendoA fúria da tempestadeHoje eu vou brincar de ser criançaE nessa dança, quero encontrar vocêDistraído, queridoPerdido em muitos sorrisosSem nenhuma razão de serOlhando o céu, chutando lataE assoviando Beatles na praçaOlhando o céu, chutando lataHoje eu quero encontrar você

**Trecho do livro Fadas no Divã, de Diana e Mário Corso

O Rei Sapo

A mais célebre história de um noivo animal e da transformação do repulsivo em atraente é com certeza O Rei Sapo. Nele, um monarca enfeitiçado depende do afeto de uma princesa para voltar à forma original. Uma das mais clássicas cenas evocadas pelos contos de fada é justamente a da bela princesa beijando um repulsivo batráquio, permitindo-lhe o retorno da metamorfose. A possibilidade de um sapo virar príncipe é um bom argumento para o fato de que as aparências não devem ser impedimento para uma relação. Seguidamente as mulheres recorrem a essa história como metáfora, quando argumentam que vale a pena investir em determinado pretendente, apostando mais no que ele se tornará do que naquilo que é no presente. Mas vale a leitura do conto, tal como estabelecido pelos irmãos Grimm, para nos surpreendermos com um fato importante: a princesa também tem lá sua feiúra.
Trata-se da filha mais jovem do rei, como sempre, a mais bela de todas as princesas. Nos dias quentes, ela tinha por hábito brincar com sua bolinha de ouro perto de uma fonte, mas uma vez deixou cair seu precioso objeto na água profunda, fazendo o brinquedo desaparecer. Desesperada, pôs-se a chorar como um bebê, aos gritos. Nesse momento surge um sapo, prometendo alcançar-lhe a cobiçada bola, mas somente se ela concordar em levá-lo para a casa dela. Além disso, teria de lhe aceitar como companheiro de brincadeiras, compartilhar com ele seu prato e admitir sua companhia até na própria cama. A jovem concordou, mas sem a mínima intenção de honrar uma promessa feita a tão desprezível criatura - e aqui ela se mostra uma pessoa bem pouco bonita. Depois de obter a bola de volta, ela foge correndo do sapo, mas ele vai até o castelo e bate à porta, exigindo o cumprimento da palavra da princesa caçula.
Horrorizada com a aparição do sapo, a princesa relata o ocorrido ao pai que, ao invés de apoiá-la, exige-lhe que faça jus à promessa. Assim, tomada de nojo, é obrigada a admitir o batráquio em sua mesa e em sua cama; na hora de dormir, ela não agüenta mais o assédio dele e raivosa o atira contra a parede. Ele, então, se transforma num belo príncipe e ela, numa enamorada princesa.
É surpreendente que o gosto popular recente tenha se apegado a uma cena que simplesmente não existe na narrativa clássica dos irmãos Grimm: a da princesa beijando o sapo. Não só nossa heroína jamais se disporia a isso, como também a transformação não era provocada por um ato de amor e sim de violência. Na atual versão popular, o sapo esclarece à jovem que ele é um príncipe enfeitiçado e, em nome da perspectiva da transformação, ela se sacrifica e vence o nojo, beijando-o. Já nesta narrativa mais antiga, a princesa se envolve com o animal sem esse consolo, a aparição do belo príncipe é uma surpresa que a recompensa pelos maus bocados por que passou.
Ao sermos fisgados pelo amor, temos como conseqüência a saída da casa dos pais para vivermos a relação, porém, isso nem sempre é pacífico. Por mais que os contos insistam que o amor é uma promessa capaz de recompensar pela infância e pela família perdidas, partir é mais fácil para os heróis que têm madrastas bruxas, pais fracos, egoístas ou que são mesquinhos movidos pela fome. Quando o lar convida a ficar, sair será uma operação dolorosa e brusca, que pressuporá algum tipo de expulsão, comumente personificado por um casamento imposto contra os desejos da jovem. Na história do Rei Sapo, o pai da princesa lhe impõe a companhia do ser viscoso em seu leito, submetendo-a à violência desse convívio. O gesto agressivo da jovem está à altura do caráter torturante da situação em que se viu envolvida, mas também é um gesto dramático de rompimento, de revolta contra a autoridade do pai e contra as exigências do sapo. A independência não pode ser construída de submissão, crescer é também perceber a limitação da força e do poder da autoridade parental.
A versão popular do beijo não enfatiza o ato de rebeldia da princesa. Naquele caso, a jovem se dispõe a uma troca vantajosa: ela faz um esforço para vencer o nojo em nome de um amor possível (voltaremos ao tema da repulsa mais adiante). De qualquer maneira, ela se submete, mas o fará somente se isso lhe convier. Um sacrifício movido por uma razão pragmática não é um ato de obediência, é uma troca.
De qualquer maneira, o que é conhecido como um beijo, originalmente foi escrito como um arremesso, sendo assim, não há como suavizar essa trama. Para ocorrer, um amor depende de que um rompimento com a família de origem esteja em curso ou consumado, é necessário que o amor entre pai e filha tenha encontrado uma nova dimensão.